Ali estava ele. Hirto, menir ancestral. Do outro lado da rua, em pé, ao alto. Forte. Firme.
Olhou-o em frente, mas de lado. Tão grande, tão gordo, tão feio.
Um, dois beijos, na face. Na ferida.
Ali como previu. Aqui.
Aquele silêncio de sempre, tão grande, tão cheio. Só os pés no granito e os gritos do vento, frio, gelado. Grande. Cheio. Um pé e outro num andar em frente, sujavam a rua, marcavam-na para sempre. Como esta, tantas.
À chegada abrem-se as portas, as pernas. A alma. Mostra-se o cantinho, o conforto. As paredes limpas, imaculadas, virgens. E só de olhar tão sujas, violadas, penetradas.
Não pensa, nem existe. Não persiste, nem resiste.
Silêncio. Sufoco.
Vai-te embora! Sai daqui! Afinal não quer. Afinal não gosta.
Silêncio.
Uma mama. Duas mamas. Limpas. Imaculadas. Virgens. E sujas, violadas, penetradas sem palavra alguma, de olhos cerrados. Cego, distante. Marcante.
Esperma. Sangue. Lágrimas. Tantas lágrimas.
O grito dela, tão preso, já quase esquecido, condenado à morte, se libertava da garganta seca.
Minha neta.
Avó.
A presença da sua ausência, como antes por entre outras paredes sujas, confortava o grito inevitável.
Um dia. Dois meses. Três anos. A curar-se.
No colo dela.
Ó papão rola a menina.